“O CORRER DA VIDA EMBRULHA TUDO,
A VIDA É ASSIM: ESQUENTA E ESFRIA, APERTA E DEPOIS AFROUXA, SOSSEGA E DEPOIS DESINQUIETA.
O QUE ELA QUER DA GENTE
É CORAGEM.”
João Guimarães Rosa —
CORAGEM.
sou juliana cadidé lucas. nascida na década de noventa, aos últimos pulsos da geração millenial, aprendendo a andar contemporânea a geração Z, o famoso mil novecentos e noventa e oito, em são paulo capital.
tenho “coragem” tatuado no pulso esquerdo. um símbolo que carrego como âncora da minha identidade: palavra que me nutre e me acolhe em momentos insólitos. tatuei aos 24 anos, cinco semanas após o falecimento do meu pai, cláudio lucas, para marcar e trazer novos significados aquele que fora o momento mais delicado da minha vida. desde então, me lembro que, com coragem, independente da dor, há a possibilidade de percorrer ao outro lado da ponte — se escolho caminhar.
sou uma mulher corajosa, sensível, inquieta, curiosa, analítica e um bom tanto impulsiva. do tipo que venderia tudo em um mês para viver viajando pelo mundo sem saber os planos dos próximos dois meses. ou que sairia de doze horas de um rolê de techno industrial direto para um show do gilberto gil — permita-me pontuar que esse último fato me define bastante como pessoa.
esse espírito plural e desbravador fora cultivado pela minha edução de base familiar desde cedo. cresci e me formei aprendendo sobre independência, sobre sonhar, sobre pensar e imaginar, sobre criar pontos de vista, sobre tentar, sobre apreciar riscos. aprendi desde cedo a dar sentido às coisas que me cercam. e é assim que vivo.
EPIFANIAS.
minha família é uma mistura magistral de baianos e mineiros. um fato curioso é que, da família materna, fui a única a deliciar o azar de nascer em solos paulistas, longe da roça, longe do mar, longe da grande família.
minha primeira epifania aconteceu aos quatorze anos, quando me mudei para salvador, sem meus pais, e por lá vivi até os dezessete com parte da minha família materna. aquele momento fora a primeira vez que aprendi, de verdade, o que era responsabilidade. antes, na infância, essa palavra não significava muitas coisas. amadureci bons anos em meses, vi o mar quase todos os dias, aprendi a falar sotaque baiano (até hoje uma das minhas músicas favoritas), fiz amigos que levo até hoje e comecei um processo de construção da minha referência cultural e identitária. em outras palavras, comecei cedo a entender minha personalidade e o lugar que gostaria de ocupar no mundo, um movimento necessário em minha história, mesmo que isso tenha colocados alguns bons desafios em meu caminho.
voltei para são paulo direto para o cursinho pré vestibular. medicina. eu, sempre mediana na escola, me meti em um dos vestibulares mais concorridos do país. três anos depois, desisti. não porque faltou coragem, mas porque a medicina deixou de fazer sentido para quem eu estava descobrindo dentro de mim.
foi aí que abriu-se outro ciclo de buscas: psicologia? publicidade? serviço social? jornalismo? plural que sou, flertei com todos. estudei dois anos de serviço social em santos, tranquei. me matriculei em publicidade, nem precisei começar para saber que não era. até que chegou o jornalismo.
para além de tudo, sou escritora. sempre gostei de escrever, tecer palavras e significados com as mãos. vejo na escrita uma forma de expressão muito particular, uma tradução quase automática de ideias e sentimentos que me surpreende e me toca em lugares muito específicos do meu íntimo. durante a escrita, me sinto vulnerável, exposta, nua, aberta. mas nesse lugar, é bom estar assim comigo mesma. escrever é uma cachoeira cuja fonte nunca seca, nunca cessa, segue sempre constante como um organismo incapaz da morte. uma arte íntima, vulnerável, voraz, feroz. e então, fui cursar jornalismo.
COMUNICAR.
sempre ouvi que tinha um dom para a comunicação. mas confesso que, por ser rebelde desde criança, nunca dei ouvidos. até que senti uma identificação instantânea na faculdade de jornalismo. tudo fazia muito sentido, tudo era fácil, tudo era intuitivo. e mergulhei de cabeça nesse universo. estudava porque me dava prazer. estudava porque gostava de tecer cada vez mais aquele conhecimento, e em uma dessas andanças, conheci a área de branding, em uma masterclass da ana couto, no youtube. naquele momento eu não sabia, mas a minha carreira estava começando.
outra característica sobre mim é o autodidatismo. quando gosto de algo, esgoto aquilo até a última gota. estudo, pesquiso, ouço, leio, aprendo. e aprendo. e aprendo. e aprendo. o objeto da minha ‘obsessão’ se torna, momentaneamente, a minha vida. com a área de branding, foi exatamente assim. quando vi, estava trabalhando em uma das maiores consultorias de estratégia de marca do mundo, a futurebrand, entendendo o tamanho da complexidade e me apaixonando cada vez mais pela área. descobri nesse processo uma habilidade latente, quase intuitiva, para com ideias de negócios, pensar em negócios, gerir negócios. e tranquei a faculdade de jornalismo.
fui estudar administração na Belas Artes. uma faculdade que vejo muita importância em citar pois, além de lapidar a minha visão técnica em gestão empresarial e apurar meu olhar para processos, aprimorou o meu olhar criativo, sensível e estético. e foi assim que a minha carreira se construiu: na interseção entre negócios, branding e comunicação.
hoje, o meu trabalho é uma fonte inesgotável de prazer e realização na minha vida. eu amo ouvir pessoas empolgadas com suas ideias, mergulhar em suas histórias, medos, ambições e trilhar uma jornada ao lado delas. acho poético quando alguém confia a mim algo tão vulnerável e carregado de significados como a construção de uma marca, de uma identidade visual, de um processo ou de um simples peça de comunicação. meu trabalho é, também, uma fonte de crescimento, de referências, de pluralidade, de ver o mundo através de muitas lentes. fazer comunicação precisa transpassar por esses contextos, se não, sinto o vazio de sentido, e portanto, de criatividade.
no fim, tudo o que busco, na vida e no trabalho, é significado.
talvez seja por isso que a palavra ‘coragem’ me acompanha: porque criar, comunicar e viver pedem o mesmo gesto. o de se lançar, mesmo sem saber o que vem depois. a coragem de sentir, de mudar, de recomeçar. a coragem de estar viva, inteira, em tudo o que faço.